A voz dos amigos


Urbano Bettencourt

A Voz dum Povo

Costuma haver nos percursos musicais ou literários aqueles momentos de pausa (ou pousio, conforme se quiser ver as coisas) que permitem um olhar retrospectivo sobre o caminho feito e, ao mesmo tempo, reavivam a memória de ouvintes e leitores. Surgem, assim, as colectâneas, as antologias, que seleccionam e recolhem, sob uma perspectiva que pode ter tanto de gosto como de qualidade, aquilo que os respectivos autores acharam ser o mais representativo; no campo musical, inclusive, deparamo-nos frequentemente com a designação “The best of....”, embora por vezes não seja fácil saber se “o melhor de ...” obedece a critérios comerciais ou artísticos, que, como se sabe, nem sempre andam a par.

Entendeu o Belaurora trazer-nos neste seu trabalho em DVD uma espécie de antologia, síntese da voz de um povo que o Grupo tem vindo a divulgar ao longo de um percurso já a caminho de um quarto de século. E faço votos de que a data venha a ser condignamente assinalada, pelo menos com “coisas” novas e o mais que se achar por bem, em nome da justiça e do reconhecimento devidos a um grupo de cantares que, apesar das transformações e reformulações humanas (até hoje já passaram por ele cinquenta e duas pessoas), manteve o propósito desde sempre traçado por Carlos Sousa, seu principal dinamizador e condutor: registar e divulgar exactamente a voz de um povo que, “na música e por ela, encontrou a chave para a iluminação do quotidiano, das suas sombras e mágoas, solidões e maresias”, como já escrevi noutra ocasião. Um projecto destes, nas condições em que se desenvolve, não subsiste senão à conta de um forte sentido de dedicação e de afecto ao objecto de que se ocupa, não sobrevive sem a consciência do acto cívico que ele próprio representa; para socorrer-me do chavão corrente, diria que o Belaurora tem prestado um verdadeiro “serviço público” à cultura do arquipélago. Não é pouca coisa.

Não é a primeira vez que o Belaurora procede a um trabalho deste género. Fizera-o já em 2000 com o CD duplo “Quinze anos de cantigas”, uma colectânea de quarenta e quatro temas do repertório do Grupo. Mas o trabalho que agora se apresenta traz diferenças de fundo. Desde já, pelo suporte material, cujas possibilidades tecnológicas permitem a associação da música à imagem e abrem caminho a uma secção documental e a outra onde se procede ao historial do Grupo. Ou seja, há neste DVD uma perspectiva global do Belaurora, em termos daquilo que é a sua “performance”, o seu modo de “pegar” na música tradicional açoriana e também em termos das andanças várias do Grupo no seu trabalho de divulgação. Neste sentido, uma secção como “Imagens da nossa Memória – Belaurora – 20 anos -1985-2005”, organizada à maneira de um album fotográfico, constitui um valioso documento sobre as actuações do grupo. Será, pois uma secção muito gratificante, por representar o reconhecimento público que convocou o Belaurora a diferentes espaços insulares e dos continentes europeu e americano (em jeito de comentário lateral menos eufórico, talvez seja também a secção mais cruel, por atestar as marcas que o tempo vai deixando, no seu ofício de grande escultor, como referia Marguerite Yourcenar). Mas eu gostaria que, se possível, as fotografias tivessem levado, para lá das datas, uma breve indicação que identificasse locais de actuação, nem sempre reconhecíveis, direi mesmo que só raramente reconhecíveis; seria um contributo para a compreensão do que tem sido, efectivamente, o percurso e a errância do Belaurora, no seu trabalho de divulgação, os diferentes espaços onde já se fez ouvir.

A nível dos temas seleccionados, há uma cobertura geral do arquipélago, com dez temas tradicionais (um por cada ilha, estando S. Jorge representado com dois), a que se juntam ainda duas composições de autor: a “Nova Chamarrita” (de Gilberto Bernardo) e a “Roda do Leme” (de José Francisco Costa e Carlos Sousa). Este último aspecto merece referência, pois tem sido também uma prática do Belaurora: a divulgação de temas que, não sendo propriamente tradicionais, se tornaram populares pelo modo como se aproximaram da vivência popular e da sua expressão artística, acabando por serem “recebidos” ao mesmo plano da música tradicional. Se, por exemplo, o “Velho Pezinho” (de José Francisco Costa), divulgado por Belaurora, entre outros, pode hoje e nalgumas situações ser confundido com música tradicional açoriana, apagando-se a sua origem autoral, esse é um equívoco que, apesar de tudo, ainda dignifica o seu autor.

Sobre o conjunto dos temas seleccionados, direi que é uma amostra da música açoriana, da diversidade dos seus ritmos, géneros, tópicos e situações vivenciais. Um trabalho antológico é sempre um trabalho mais exclusivo do que inclusivo: por cada autor que escolhemos há sempre um número inquantificável de outros que saltam pela borda fora. Por isso, seria pouco pertinente, e levar-nos-ia a uma conversa sem fim à vista, estar a discutir se haveria outros temas que poderiam integrar a selecção deste “A Voz dum Povo. É claro que haveria sempre e o problema só se resolveria com uma gravação integral, mas esse seria outro projecto, e o que nós temos é este. E é nele que temos de fixar-nos: por um lado, e de novo, a afirmação de uma fidelidade à música açoriana, mas que por sê-lo não se coloca numa atitude servil, antes se exerce numa liberdade controlada, que inova sem desfigurar; por outro lado, a mais-valia resultante da articulação entre música e imagem.

Penso que, neste aspecto, é possível detectar uma dupla articulação, a geográfica e a temática; há um propósito imediato de vincular cada tema a imagens da própria ilha, mas ao mesmo tempo abrindo o campo para imagens “exteriores”, principalmente quando os temas se reportam a contingências naturais e históricas da vida açoriana no seu conjunto, de que a partida, a dispersão, a ausência e a saudade constituem marcos de referência a implicar imagens muito para lá de cada ilha e mesmo para lá do arquipélago. De resto, a “ilustração” dos temas permite reconduzi-los, na medida do possível, ao seu contexto originário, em que a música surge intimamente ligada ao trabalho, à festa, aos rituais humanos; “A Voz dum Povo” recupera, em parte, uma dimensão cultural, antropológica que se diluía na versão apenas musical.

A terminar, será de referir ainda dois nomes desde há muito ligados ao Belaurora: Emiliano Toste e Gilberto Bernardo. Este último tem fornecido ao Grupo sucessivas capas de discos, inconfundíveis no seu traço e tonalidades, que são já uma primeira leitura-síntese de cada trabalho. Emiliano Toste (de quem me tornei vizinho esporádico), lá do seu canto em S. Mamede de Infesta e com a sua etiqueta AÇOR, tem contribuído de modo inegável para a difusão da música açoriana, mesmo muito para lá das edições de Belaurora, como se sabe. Só ele poderá dizer contra que constrangimentos e obstáculos.

Resta-me, pois, felicitar o Belaurora e esperar que a “audiovisão” deste DVD proporcione a cada um a mesma satisfação que me proporcionou a mim próprio.

Urbano Bettencourt

4 de Maio de 2007

 
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